Acordo e mais uma lua enorme que chamam de sol queima a terra em rotação. Mais um dia, eu penso em meus cobertores. O ar condicionado estalando um gelo artificial e esfriando meu quarto em um verão especialmente quente. Levanto máquina para fingir ser gente na rotina que cala. Mais um dia de privações, mais um dia como todos os outros. Lavo a cara, tiro os sonhos dos olhos ainda sonolentos e coloco um vestido florido de uma primavera qualquer. As sandálias já gastas de estalar caminhadas rotineiras nas ruas e tomo meu café amargo, sem açúcar. Como num mantra “mais um dia, menos um” pra zerar minhas expectativas. Escovo os dentes em menta e saio de casa com uma bolsa que contém um caderno, uma caneta de nanquim e o molho de chaves que abrem as minhas portas. Desço os 3 andares do prédio e caio na rua. Dez da manhã e o sol é tão quente quantos os desertos internos dos que andam pelas ruas, assim como eu em rotinas massantes. E respiro poluição e estratégias para sobreviver àquele dia de verão intenso.
Meus pés, ao invés de me levaram ao metro ou ao ponto de ônibus, fazem o percurso mais longo. Passam pela praia e eu decido que hoje não será um dia como todos os outros simplesmente porque eu preciso romper a rotina. Ao menos por hoje. Tiro as sandálias e finco meus pés na areia branca e seca. Fico olhando os automóveis passarem correndo em direções diversas, indo e vindo do centro da cidade. Vejo também gente que aproveita essa segunda-feira de manhã para se espreguiçar naquela praia suja e que cheira a merda. Com seus livros de auto-ajuda deitados em cangas de desenhos simétricos. Tudo para mim gera o caótico mundo do tempo corrido. Alcançamos nossas metas aos tropeços. Respirar. Sento num monte de areia, escrevo no pulso esquerdo CURVA PSICODÉLICA A MENTE SALTA DO TRILHO e fumo a ponta do outro dia. Faz feder os dedos, mas não me importo. Hoje me retirei das privações pragmáticas e tirei o dia para simplesmente ser sem almejar. Não falo. Minha boca permanece calada.