Enquanto dormia, alguém sussurrou no meu ouvido que a gente precisa esquecer, ou se isso não é possível, que é preciso deixar ir. Eu te disse adeus num domingo, lembra, pai? Fazia um dia tão bonito e eu lembro que no dia anterior eu passei horas arrumando meu quarto, redecorando as paredes só pra modificar alguma coisa, mesmo que externo a mim. A distração de não ficar te olhando naquele quarto, tão calado e absorto em seus próprios pensamentos. Eu queria te dizer tanta coisa que ainda tá entalado aqui na minha garganta, que ainda não se dissolveu em lágrimas no nosso adeus. E eu te disse ali, enquanto dormia o sono eterno dos justos, que você podia ir tranquilo, que eu cuidava das coisas aqui em casa. acho que me precipitei nessa promessa, sabe. Não sei se sou forte o bastante pra continuar minha vida como se sua partida não tivesse tirado meu chão. e depois do adeus tanta coisa, tanta euforia, afinal, a vida precisa seguir, não é? Quanta válvula de escape, quanta desculpa e mentira eu tive que dizer só pra parecer melhor, firme no meu propósito de continuar, mas a linha vai até onde, sabe? Acho que você teve pouco tempo aqui do meu lado e fica aquela sensação de que você foi cedo demais, que você não viu minha vida dar um giro no ar, que não me viu evoluir, não teve a chance de sentir orgulho da sua pequena. E se estiver me lendo, ouvindo ou me vendo em outro mundo paralelo a esse em que te escrevo, peço perdão por não ser forte, por querer desistir assim da vida, por perder a vontade de continuar. Eles dizem que é preciso deixar ir, mas eu me pego relembrando o nosso adeus tão prematuro e de todas as coisas que não pude dizer. eu te digo agora, nessa hora da noite em que o sono me escapa: te amo mais do que a mim mesma e isso me é irreal, tanta coisa você não viveu, tantos lugares não chegou a ir e talvez seja essa a força que ainda me move, o viver por você, para você, mesmo que ainda doa, mesmo que ainda fira. Nunca esquecer, mas sempre prosseguir.