3.9.16

sobre as cinzas

Das cinzas o sopro: o cuspe já não abala o meu pesar, desapropria o escárnio, infame, pois ele não me atinge como antes. Das cinzas, me vejo liquida, pois diluída em água me deságuo  em seus cabelos secos e caio em poças de lágrimas malditas, ergo-me aurora boreal, fluida e descontínua, só pra ver se você sente esse abalo que é tocar o inatingível lugar oculto do corpo. Tocar lá no fundo, arder pele e osso em brasa, desconstruir-se em pólvora, vento leva os restos, pois cinzas me torno infinita.

1.9.16

sobre as crises dos vinte e poucos


Inesperadamente aquela bolha estourou bem na cara dela, sujando as suas roupas novas. Pois bem, marte duas caras, tem tendencias ao caos do jogo duplo. E perdoou-se, tinha mais gente pra empurrar a culpa que era metade sua. Logo engoliu-se naquele tão conhecido vazio de crises, como agir com o outro, como agir consigo mesma. Perguntou as cartas que, diretas, lhe sugeriram o mesmo caminho que vinham sinalizando todo esse tempo, mas que ela deliberadamente ignorava, cega e egoica que era.
O fato é que durante o percurso dos seus vinte e tantos, ela se corroeu em ressentimento e ódio de si mesma. Aquele não reconhecer-se mais diante de tanta coisa acontecendo tão rápido e tão repentino e, por isso, Perdas e ganhos, ela tinha um punhado de coisas na cabeça, coisas para resolver, coisas a fazer e a cama a engolindo dia a dia na letargia dos remédios controlados.
A sujeira no corpo não foi capaz de limpeza interna, só externa. Mudou os cabelos, as roupas, seus espelhos de lugar, mas permaneceu justamente igual, quebrada e incompleta, odiando-se em silêncio enquanto declarava a todos uma paixão por si mesma.
Após algum tempo relembrando sua curta vida, decidiu que estava na hora de se reinventar, ou melhor, voltar à sua meninez ingenua que lhe rendia tanta paz interior. Aos 15 sabia exatamente quem era, os defeitos e qualidades devidamente em controle. Quis voltar aos 15, reviver a doçura que era andar de braços dados com as amigas. Temer e respeitar o mundo ao mesmo tempo, viver aos pouquinhos, como quem prova uma sopa quente demais e vai pelas beiradas.

sobre a rotina que cala

Acordo e mais uma lua enorme que chamam de sol queima a terra em rotação. Mais um dia, eu penso em meus cobertores. O ar condicionado estalando um gelo artificial e esfriando meu quarto em um verão especialmente quente. Levanto máquina para fingir ser gente na rotina que cala. Mais um dia de privações, mais um dia como todos os outros. Lavo a cara, tiro os sonhos dos olhos ainda sonolentos e coloco um vestido florido de uma primavera qualquer. As sandálias já gastas de estalar caminhadas rotineiras nas ruas e tomo meu café amargo, sem açúcar. Como num mantra “mais um dia, menos um” pra zerar minhas expectativas. Escovo os dentes em menta e saio de casa com uma bolsa que contém um caderno, uma caneta de nanquim e o molho de chaves que abrem as minhas portas. Desço os 3 andares do prédio e caio na rua. Dez da manhã e o sol é tão quente quantos os desertos internos dos que andam pelas ruas, assim como eu em rotinas massantes. E respiro poluição e estratégias para sobreviver àquele dia de verão intenso.
Meus pés, ao invés de me levaram ao metro ou ao ponto de ônibus, fazem o percurso mais longo. Passam pela praia e eu decido que hoje não será um dia como todos os outros simplesmente porque eu preciso romper a rotina. Ao menos por hoje. Tiro as sandálias e finco meus pés na areia branca e seca. Fico olhando os automóveis passarem correndo em direções diversas, indo e vindo do centro da cidade. Vejo também gente que aproveita essa segunda-feira de manhã para se espreguiçar naquela praia suja e que cheira a merda. Com seus livros de auto-ajuda deitados em cangas de desenhos simétricos. Tudo para mim gera o caótico mundo do tempo corrido. Alcançamos nossas metas aos tropeços. Respirar. Sento num monte de areia, escrevo no pulso esquerdo CURVA PSICODÉLICA A MENTE SALTA DO TRILHO e fumo a ponta do outro dia. Faz feder os dedos, mas não me importo. Hoje me retirei das privações pragmáticas e tirei o dia para simplesmente ser sem almejar. Não falo. Minha boca permanece calada.